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Por Michele Rolim *

O espetáculo A Travessia de Maria e seu irmão João, do grupo paulista Cia. Arthur-Arnaldo, apresentada no 36° Festivale, traz ao público um conto muito presente no imaginário infantil: a fábula de João e Maria. O conto coletado narra a história de dois irmãos abandonados em uma floresta na época da Idade Média, pelos irmãos Grimm no século XIX. No entanto, a Cia Arthur-Arnaldo, que estreou o espetáculo em 2019 com direção de Soledad Yunge, se inspirou livremente na releitura do conto feita em 2014 pelo inglês Neil Gaiman (dos filmes Sandman e Coraline).
A narrativa de Neil que a companhia leva ao palco apresenta dois planos. Um da materialidade: a fome. Assunto bastante próximo da realidade brasileira enfrentadanos últimos anos, já que o país soma atualmente cerca de 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente – os dados são da Rede Brasileira de Pesquisa em
Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). Podemos considerar também o abandono das crianças pelos pais, também bastante presente na nossa realidade.
O segundo plano é o do fantástico, tão típico das narrativas de contos de fadas, como quando visualizamos a casinha de doces e a bruxa no meio da floresta.

Neil Gaiman, assim como a companhia paulistana, não economiza na construção de uma narrativa contundente de terror, que não subestima a capacidade da criança de reflexão. Na versão de Neil e da companhia, é a mãe que propõe abandonar as crianças na floresta. “Somos quatro – disse a mãe –. Quatro bocas para alimentar.
Se continuarmos assim, vamos todos morrer. Sem as bocas a mais, eu e você teremos uma chance”. Os Grimm, por exemplo, transformam a mãe em madrasta talvez na tentativa de suavizar o abandono. Já a peça parece propor, ao contrário, uma importante questão: uma mãe pode abandonar seu filho?


O abandono dos pais – o pai aceita, ainda que relutante, a ideia da mãe de largar os filhos na floresta – confronta uma certa lógica na sociedade: a do amor incondicional dos pais aos filhos, que devem colocar sempre os filhos em primeiro plano. No período medieval, existiram inúmeros relatos de pais que, quando afrontados com a
fome, escolheram o abandono dos filhos em florestas, na tentativa de se salvarem.


E não precisamos ir até o período medieval para nos confrontarmos com histórias de abandono das crianças. A contemporaneidade também serve de exemplo, afinal quantas crianças sofrem de violência tanto física quanto psicológica, inclusive
dentro da própria família?

A maneira que a companhia tensiona o universo fantástico e a realidade é bastante interessante.

As duas atrizes (Carú Lima e Júlia Novaes) propõem em cena uma contação de histórias pela ótica de João e Maria, ora através de bonecos, que são seus duplos, ora com as personagens sendo interpretados pelas próprias atrizes-manipuladoras.

As duas atrizes criam uma terceira personagem, a bruxa da casinha de doces, em um jogo de cena muito bem feito a tal ponto que o público quase tem a certeza de que há uma terceira pessoa no palco.
Maria vence seu medo e derrota a velha bruxa, que é apresentada na versão de Neil e da Cia. Arthur-Arnaldo não como uma bruxa feia e aterrorizante, e sim como uma senhora de idade muito frágil. Na versão de Neil, ao derrotar a bruxa, as crianças abrem um baú na casa da velha e encontram roupas, anéis, chapéus e luvas de pessoas que por ali passaram e não tiveram a mesma sorte que elas. Já a companhia opta por mudas de plantas alimentícias, convidando as crianças a plantarem simbolicamente as mudas no palco.

Também vale destacar os aparatos da cena, que jogam luz sobre a questão da comida, trazendo, por exemplo, os bonecos, que são feitos de massa de pão e duas galinhas feitas somente com cascas de ovos – os animais responsáveis por comer os restos de pães soltos para demarcar o caminho de volta na floresta.


Temos cenas, portanto, de grande impacto visual, nas quais é criada uma relação de ambivalência entre o que está sendo dito (a temática da fome) e a beleza da cena (com artefatos feitos de alimentos naturais). Os temas propostos da cena – a fome e violência – contrapõem-se à estética proposta. O estranhamento surge como
produto deste paradoxo em que ambos, a fantasia e a realidade reconfiguram-se na percepção do público, demovendo suas expectativas.


A importância dos contos e da montagem da Cia. Arthur-Arnaldo está em apresentar uma história que vai além do teor fantástico, propondo uma aproximação com a realidade, da vida como ela é, com suas injustiças sociais e abandonos, possibilitando às crianças repensarem seu lugar, sua travessia no mundo.

* Michele Rolim é jornalista, pesquisadora e crítica teatral. Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS. Trabalha na imprensa cultural desde 2009 e como Conselheira Estadual de Cultura do RS (2020-2022). É editora do site AGORA Crítica Teatral (www.agoracriticateatral.com.br) e autora do livro “O que pensam os curadores de artes cênicas” (2017, editora Cobogó). É membro da FIBRA – Rede de Festivais Internacionais Brasileiros para Crianças e Jovens. Participou de diversos júris de Teatro. Vem atuando em festivais de artes cênicas no Brasil como crítica, debatedora e curadora.

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Publicado por Cia. Arthur-Arnaldo de Teatro

Fundada em 1996 a companhia sempre pesquisou e atualizou temas sociais e políticos. Resgatou a dramaturgia de Augusto Boal montando dois de seus textos (um deles inéditos nos palcos brasileiros. A partir de 2006, idealizado pela diretora Soledad Yunge, começou um trabalho de pesquisa com textos voltados ao público jovem. Em 2007 a Cia recebeu 5 indicações para o Prêmio FEMSA de Teatro Infantil e Jovem, incluindo a de melhor espetáculo jovem de 2007, e foi contemplada com o Prêmio Myriam Muniz da Funarte para o espetáculo “Bate Papo” do autor irlandês Enda Walsh, até então inédito nos palcos brasileiros. A peça tratava de um assunto sério: bullyng virtual, a repercussão foi tanta que a peça comemorou um ano em cartaz e foi capa de uma matéria sobre o tema na Revista da Folha. Em 2008 encenou o texto “Cidadania” de Mark Ravenhill, recebendo 6 indicações ao Prêmio FEMSA 2008, incluindo a de melhor espetáculo jovem de 2008 e vencendo na categoria de melhor ator para Fabio Lucindo. Recebeu criticas elogiosas nos principais veículos de comunicação: Veja SP, Folha de SP e Estado de SP. Em 2009 a montagem da peça “DNA” que traz pela primeira vez aos palcos paulistas a dramaturgia do inglês Dennis Kelly, um dos mais festejados autores britânicos jovens em um de seus melhores textos, segundo o The Guardian. A peça recebeu 5 indicações ao Prêmio FEMSA, incluindo melhor espetáculo jovem de 2009 e foi convidada para reinaugurar a Sala Carlos Miranda da Funarte em 2009. Em 2011, chegou a vez das redes sociais, e a Cia. estreou o espetáculo Feizbuk do autor argentino José Maria Muscari no evento “Qual é a sua?” voltado ao público jovem no SESC Consolação. A peça vem sendo apresentada com sucesso nas diversas unidades do SESC em SP e inclusive em parceria com a FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação). Em 2012 a Cia Arthur-Arnaldo foi indicada ao Prémio FEMSA na Categoria Especial em reconhecimento ao trabalho continuado dedicado ao público jovem. Nosso repertório já foi apresentado em diversas salas de espetáculo: unidades do SESC Consolação, Belenzinho, Pompéia, Vila Mariana, Santos, Santo André, Bauru, SJ Campos, Campinas, Sorocaba; Centro Cultural São Paulo, Centro Cultural da Juventude, Espaço dos Satyros 1, 2 e 3 (Jd Pantanal), Teatro Cultura Inglesa-Pinheiros, Complexo Cultural da Funarte entre outros. Em 2013 e 2014, esteve em cartaz no Centro Cultural São Paulo com a montagem do texto do autor português Tiago Rodrigues “Coro dos Maus Alunos” - a peça foi contemplada pelo edital do Proac de Produções Inéditas e foi indicada ao Prêmio FEMSA nas categorias: autor, elenco e melhor espetáculo jovem; e ao Prêmio CPT 2013 nas categorias: dramaturgia, direção e melhor espetáculo jovem. Em 2014 a Cia. Arthur-Arnaldo estreou o espetáculo infantil "Os Pés Murchos x Os Cabeças de Bagre" , dirigido por Soledad Yunge, em 3 de maio no Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. A peça cumpriu temporada em 2015 no Teatro Cacilda Becker (SP) e participou da Mostra 2014 em Cena, Virada Cultural Paulista e do Circuito SP de Teatro. Em 2015 foi contemplada pela Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo com o projeto #JOVENS que inclui circulação de 2 espetáculos (Coro e Pés Murchos), encontros formativos, 20 oficinas gratuitas para jovens de escolas públicas além da produção de um novo espetáculo. ROLÊ, com texto e direção de Tuna Serzedello, estreou no Centro Cultural São Paulo em 14 de outubro de 2015 e reestreou na mesma sala dia 26 de janeiro de 2016. ROLÊ foi publicado na pela editora Giostri na coleção Dramaturgia Brasileira. Em 2017 o projeto )Entre Jovens( foi contemplado pela 30a edição do Programa Municipal de Teatro para a Cidade de SP e realizou inúmeras vivências com jovens para a criação de uma dramaturgia inédita, além de uma Mostra e uma exposição, com leituras e espetáculos celebrando os 10 anos de repertório jovem da Cia. e a estréia de um novo espetáculo "Mártir" de Marius Von Mayenburg, com direção de Soledad Yunge. Em 2018 a Cia. Arthur-Arnaldo esteve na Alemanha para uma colaboração internacional com o Alarm Theater de Bielefeld para a montagem da peça “Schutzschilde” (Escudos Humanos) da autora portuguesa Patrícia Portela com jovens alemães e refugiados. 2019 marcou a estreia do espetáculo “A Travessia de Maria e seu irmão João” contemplado pelo 23º Cultura Inglesa Festival e a publicação pela Chiado Books da peça “Ato Parental” de Tuna Serzedello resultado do projeto )entre jovens( de 2018.

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